quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dueto para Um - Estreia a 8 de Outubro | TECA - Porto









Dueto para Um


Autor: Tom Kempinski


Tradução: Constança Carvalho Homem



Direcção: Carlos Pimenta


Cenografia: João Mendes Ribeiro


Figurinos: Bernardo Monteiro


Desenho de Luz: José Álvaro Correia


Música original: Ricardo Pinto


Vídeo: Alexandre Azinheira


Assistente de Encenação: Vânia Mendes



Com: Emília Silvestre e Jorge Pinto



Uma produção ENSEMBLE – Sociedade de Actores


Estreia a 8 de Outubro no TECA TNSJ - Porto

terça-feira, 10 de agosto de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Antígono - em Janeiro de 2011 no CCB






CCB – 21/22 Janeiro 2011 Sexta/Sábado . Grande Auditório 21h
Estreia moderna mundial
Antígono
Ópera em três actos de Antonio Mazzoni com libreto de Pietro Metastasio (1755)

Enrico Onofri direcção musical
Carlos Pimenta direcção cénica
António Jorge Gonçalves desenho digital em tempo real
José António Tenente figurinos
Nuno Meira desenho de luz
Nicholas McNair reconstrução da partitura, edição crítica


Michael Spyres Antigono
Sonya Ioncheva Berenice
Pamela Lucciarini Demetrio
Martín Oro Alessandro
Ana Quintans Ismene
Maria Hinojosa Montenegro Clearco

Orquestra Divino Sospiro

Antígono (1755) de Antonio Mazzoni foi a última ópera estreada em Lisboa antes do terramoto de 1755. A malograda Casa da Ópera do Paço da Ribeira – inaugurada em Março de 1755 e destruída poucos meses depois, com o terramoto de 1 de Novembro – foi provavelmente o único espaço que assistiu à interpretação desta ópera. Terceira e última produção da efémera Ópera do Tejo (como passou a ser conhecida), é igulamente uma das poucas composições sobreviventes de Antonio Mazzoni. O libretto de Antigono, da autoria de Pietro Metastasio, foi um dos preferidos pelos compositores desta época, como Gluck, Hasse ou Piccinni. A partitura de Mazzoni, que regressa agora com o Divino Sospiro, sofreu um trabalho de edição crítica da responsabilidade de Nicholas McNair.



“Se a ideia de imperfeição está associada à etimologia de barroco, dela nos apropriamos para estabelecermos o nosso conceito de esboço para uma obra. Esta partitura e este libreto surgem-nos – mais de 250 anos depois – resgatados do encobrimento que as ruínas do Grande Terramoto pareciam ter determinado. Esta é uma ópera sem memória. Queremos recuperá-la do esquecimento, tentando adivinhar as linhas que davam forma ao espaço físico e sentimental que lhe proporcionou efémero esplendor. Na glória do barroco o tempo transforma-se em eternidade. O hiato temporal a que a natureza condenou Antígono foi imerecido castigo. Não é, contudo, a arqueologia que nos move. No século XXI, o nosso barroco só poderá ser um barroco digital”
Carlos Pimenta

InternacionalizArte


Obscena – Revista de artes performativas
#24 – Julho/Agosto 2010
www.revistaobscena.com
www.facebook.com/obscena
Opinião
por Carlos Pimenta

InternacionalizArte
-transacções, exportações e algumas mistificações –

Fotografia
A recente publicação, pelo Observatório das Actividades Culturais, do estudo “Mobilidade Internacional de Artistas e outros Profissionais da Cultura” veio suscitar alguma (pouca!) intervenção pública sobre esta matéria. O estudo destaca a fraca mobilidade internacional dos artistas e agentes culturais e o défice de informação sobre as oportunidades relativas a este aspecto da sua actividade. Tendo sido, entre 2006 e 2009, consultor do Instituto Camões para a área das artes performativas, com funções específicas no domínio do lançamento e execução do Programa de Apoio à Internacionalização, considero pertinente complementar os resultados do estudo com algumas informações e dados decorrentes da experiência proporcionada pelo acompanhamento do Programa. O Programa de Apoios, implantado pela então Presidente Simonettta Luz Afonso, procurava regulamentar e calendarizar a intervenção do Instituto nesta área e, fundamentalmente, dar resposta às iniciativas desenvolvidas pelos artistas e organizações culturais privadas, possibilitando a apresentação internacional da arte e da cultura portuguesa em áreas tão diversificadas como a arquitectura, teatro, dança, cinema, design, projectos transdisciplinares, artes visuais, etc. Procurava-se, também, alterar a imagem da instituição que passou a assumir com clareza o papel determinante da arte e da cultura na promoção e ensino da língua no estrangeiro.
O Programa orientava-se, essencialmente, para o apoio a privados complementando, também, a actividade e iniciativa que o próprio Instituto desenvolvia através da sua rede mundial de Centros Culturais e Leitorados. De realçar, que os financiamentos atribuídos nunca se destinaram à actividade própria do Instituto, embora os projectos e iniciativas decorressem em articulação estreita com os diversos organismos constitutivos da rede internacional de que dispõe.
Ao contrário daquilo que o senso comum considera como dominante na área da internacionalização (uma forte dependência do Estado enquanto promotor das iniciativas) foi surpreendente verificar a capacidade de acção de artistas e organizações no que respeita à implantação dos seus projectos nos diversos contextos internacionais. Assim, ao longo de quatro anos, foram apresentadas ao Programa de Apoios 900 candidaturas, tendo sido apoiadas cerca de 1/3 desse universo global. O maior número de apoios verificou-se nas áreas do teatro, dança, artes visuais, música, cinema e projectos transdisciplinares. Em termos geográficos, Espanha, França, Brasil, EUA, Itália, Reino Unido, Alemanha e Polónia, foram os países que mais projectos viram apoiados no âmbito do Programa (refira-se a este propósito que as entidades estrangeiras que apresentassem iniciativas no contexto da cultura portuguesa também poderiam submeter candidaturas).
Importa destacar o facto do Programa de Apoio à Internacionalização ter sido o único, no contexto das instituições oficiais nacionais, que funcionou ininterruptamente ao longo de quatro anos contribuindo, desta forma, para o estabelecimento de uma efectiva base de confiança entre os artistas e a instituição. Os bons resultados do Programa devem-se, essencialmente, ao facto deste estar desenhado para dar resposta às necessidades dos artistas e suas organizações, respeitando a sua liberdade de escolha e apoiando financeiramente algumas das áreas que as suas contratualizações com as organizações internacionais não cobriam – sobretudo no que dizia respeito a deslocações.
As instituições públicas devem resistir à tentação de querer fazer aquilo que cabe às organizações culturais. Estas, melhor conhecedoras do terreno, são capazes de fazer melhor, com menos desperdício de meios e com mais eficácia. Aos organismos públicos caberá apoiar financeira e institucionalmente as iniciativas resultantes do vigor do meio profissional potenciando, com a abertura de canais oficiais e diplomáticos, o trabalho desenvolvido pelos privados. É certo que muitos organismos oficiais procuram afirmar a sua própria visibilidade através da promoção de iniciativa própria legitimando, desta forma, o reconhecimento público dos contribuintes (e dos eleitores!) quanto á sua acção e quanto à sua própria existência e necessidade. Nada de mais contraproducente para o desenvolvimento artístico. A Administração é meio e não fim. Deverá, pois, e sobretudo, concentrar a sua atenção e esforço na necessária adaptação às novas realidades conjunturais, vencendo alguma inércia e formalismo ainda persistentes, tornando-se mais ágil e optimizando a sua capacidade de leitura das transformações que ocorrem no sector artístico para que possa dar respostas mais eficazes às solicitações de um sistema em mutação constante.

Exportação, difusão, mobilidade

Não é possível encarar a internacionalização da arte e da cultura na mera perspectiva da “exportação” – conceito mais adequado ao contexto mercantilista, no qual a arte e a cultura não encontram uma correspondência plena na generalidade dos pressupostos. Assim, a presença da arte e da cultura portuguesa nos diversos circuitos internacionais de difusão deve ser perspectivada no contexto normal da mobilidade e não, como outrora foi encarado, no da prevalência e dominância cultural que presidiu a alguns colonialismos e instrumentalismos que serviam objectivos meramente geopolíticos. A tendência para a instrumentalização da cultura é bem visível no mais recente filme de João Canijo “Fantasia Lusitana” que, ao contrário daquilo que muitos podem pensar – afirmar-se como um documentário sobre o Portugal dos anos 40 do século passado – constitui-se como um inteligente e subtil retrato vivo de algumas situações que ainda experimentamos no presente.
Nos dias de hoje, as teorias relativas ao chamado “soft power” procuram revivificar o papel da arte e da cultura no âmbito de uma neo-instrumentalização que lhes será prejudicial e à qual os artistas e agentes culturais se devem opor.
As novas gerações de artistas encaram a apresentação dos seus projectos no contexto internacional como algo de absolutamente normal no âmbito da sua actividade – resultado de um cosmopolitismo que até há alguns anos era menos evidente na nossa sociedade. A circulação internacional dos artistas e das suas obras verifica-se, felizmente, independentemente das fronteiras físicas ou ideológicas e a sua limitação é, regra geral, um sinal inequívoco de constrangimentos de natureza política ou cultural que já não aceitamos nas sociedades contemporâneas cada vez mais abertas e universalistas. Contudo, se essa abertura internacional se procura estimular nas áreas comerciais, no que respeita à arte e à cultura ela sempre se verificou. A arte e a cultura são áreas fortemente caracterizadas pela transnacionalidade. Já em 2008 o relatório do ERICarts sobre a mobilidade dos artistas na UE realçava que essa mobilidade “constitui um aspecto que faz parte integrante da actividade profissional normal dos artistas e dos outros profissionais da cultura”.

A cultura como investimento

Poderá perguntar-se: mas, não estando a arte e a cultura excluídas do tecido económico, não deverão estas ser capazes de gerar os recursos suficientes para o seu desenvolvimento? Existiu, durante demasiados anos, na opinião pública, a ideia de que a cultura era um autêntico sorvedouro de dinheiros públicos. Felizmente essa ideia caiu por terra quando, com cada vez mais frequência - porque a “crise” tornou impossível o seu encobrimento - vieram a público notícias de avultadíssimas injecções de capital (do nosso capital!) para salvar alguns sectores da economia que, afinal, em nada estavam a contribuir para o desenvolvimento económico. Se comparadas com as verbas agora atribuídas ao chamado “sector produtivo” e ao sector financeiro, as que têm sido disponibilizadas para o desenvolvimento cultural podem definir-se numa palavra: irrisórias. Contudo, podemos considerar que essas verbas têm sido aproveitadas pelos artistas com grande eficácia. O reconhecimento internacional, ao contrário do que se verifica em muitos outros sectores, está comprovado. Talvez, por isso, nos reste, no meio de tanta desgraça, o prazer da afirmação cultural através da presença da nossa arte e da nossa cultura nos contextos geográficos mais insuspeitos e diversificados. Apesar de tudo, devemos estar conscientes da nossa dimensão enquanto país. O nosso problema é, também, um problema de escala. No que diz respeito à cultura, essa noção de escala tem sido superada e isso acarreta uma maior exigência e uma maior responsabilidade no que respeita à manutenção deste nosso relativo sobredimensionamento face às expectativas exigíveis. No entanto, o desenvolvimento de qualquer política cultural neste sector só poderá ser feito com a conjugação de boas ideias, bons projectos, boas equipas e orçamentos adequados garantindo, obviamente, a sua aplicação sem desperdício e com a máxima eficácia. Quando a ideia de recurso ao mecenato já não vinga como alternativa lançada aos agentes artísticos para mitigar a insuficiente disponibilidade de verbas do OE procura-se, muitas vezes, propalar a auto sustentabilidade da arte e da cultura - como se o recurso à sua “exportação” fosse a panaceia para toda a insuficiência orçamental que o sector tem atravessado (situação, aliás, já reconhecida publicamente pelo actual Primeiro-Ministro).
As dúvidas relativas ao real valor em termos económicos da cultura prendem-se, sobretudo, com a mensuração dos seus ganhos que, não sendo muitas vezes imediatos, são de contabilização mais complexa e, por isso mesmo, negligenciados no ‘deve e haver’ tão característico da nossa – agora – tão imediata necessidade de captação de recursos externos. Descoberto, recentemente, por alguns, o potencial económico da cultura, o primeiro impulso é o da sua rendibilização acelerada. No entanto, uma visão demasiado mercantil deste sector - com características tão específicas – pode contribuir para a sua descaracterização e para a sua transformação em mais uma mercadoria que contribua para o equilíbrio do défice externo: ultimamente temos vivido (continuaremos a viver?) num projecto de sociedade meramente aritmética e não num projecto de sociedade humanista que potencie um desenvolvimento integral. A este respeito, parece-me da maior prudência desmistificar algumas “teorizações” que procuram englobar as artes performativas no conceito genérico de “indústria cultural”. Mais uma vez se procura, com esta falsa possibilidade de pertença, um caminho que passe pela auto-sustentabilidade das mesmas com a agravante, neste caso, de uma completa ignorância do significado do conceito proposto por Adorno e Horkheimer.
Talvez seja oportuno questionar o “encantamento” que nalguns tem provocado a noção de “indústria cultural”. Recordem-se, a este propósito, as palavras de Lipovetsky e Serroy na sua mais recente publicação A cultura-mundo. Resposta a uma sociedade desorientada.
“ a lógica que rege as indústrias culturais é uma lógica de diversificação e de renovação permanentes, uma lógica de novidade e de obsolescência acelerada. Um filme afasta o outro, uma vedeta toma o lugar de outra, um disco substitui o precedente. O temporário é a lei, tanto estética como económica, da cultura de massas, acompanhando estruturalmente o mundo moderno da velocidade e da inovação permanente”
Nada tenho a opor à aposta no desenvolvimento das indústrias culturais importa, contudo, tornar claros os sectores que estas englobam e a especificidade de cada um deles. Caso contrário, estaremos a condenar definitivamente a uma perspectiva de ordem meramente económica áreas determinantes para o desenvolvimento e coesão social como o património, as redes museológicas, o teatro, a dança ou a música ao vivo, e, claro, tudo aquilo a que ainda chamamos arte.

O desinvestimento como cultura

Hoje em dia, o desinvestimento na cultura vai-se justificando com a famigerada crise. Se, por um lado, ela se reflecte nas cativações e no chamado “esforço de equilíbrio orçamental” parece, por outro lado, não existir nos apoios ao sector financeiro que o Estado Português tem disponibilizado. A crise, afinal, é um espelho de dupla face. E, na conjugação das duas, se percebe que o financiamento da actividade cultural não é prioridade.
Embora os diversos ministros da cultura reconheçam (à excepção do anterior) as insuficientes verbas colocadas à disposição dos seus ministérios, é certo que, recordando Manuel Maria Carrilho “a cultura ainda não está no coração da política”. Para superar as dificuldades orçamentais do sector cultural pede-se aos artistas e às organizações e gestores culturais, que sejam inventivos. Para mitigar os erros de gestão no sector bancário, disponibiliza-se capital. Para a generalidade dos políticos os apoios à cultura são da “ordem do discurso” mas os apoios ao sector bancário são da “ordem de pagamento”.


Conclusão

Embora por vezes exista, esporádica e sectorialmente, uma tímida vontade de articulação entre os diversos ministérios responsáveis pela determinação de políticas relativas à internacionalização (Cultura, Negócios Estrangeiros, Economia) não é de esperar, no curto prazo, que essa articulação se efective de uma forma substancial capaz de gerar verdadeiras sinergias que conduzam o sector a um maior desenvolvimento. A inércia funcional que algumas instituições ainda encerram será, sem dúvida, um obstáculo à articulação de projectos conjuntos virados para uma real potenciação das actividades dos diversos agentes culturais. Caberá, talvez, aos artistas e às suas organizações assumir essa liderança reclamando do Estado o cumprimento do seu papel enquanto entidade financiadora. E daqui não virá nenhum mal: é esse um dos papéis do Estado. Nem tão pouco há que interiorizar qualquer complexo de menoridade: basta substituir o estigmatizado “subsídio” por “incentivo” e logo vemos que é essa a prática generalizada em quase todas as áreas da nossa actividade empresarial. A tão propalada importância económica da cultura veio, afinal, justificar que esta seja cada vez mais apoiada. Por isso, há que inverter a ordem do discurso. O sector cultural faz, agora, assumidamente, parte da economia e sendo um dos sectores económicos com maior potencial de crescimento, justifica-se que esse crescimento seja incentivado.

Carlos Pimenta – Encenador e actor – foi consultor do Instituto Camões para a área das artes performativas entre 2006 e 2009.

terça-feira, 22 de junho de 2010




Em 1996, Carlos Pimenta encenou Moderato Cantabile no Teatro Nacional D. Maria II, onde o teatro de Duras vê reafirmado um trabalho de ocultação e de sofrimento, da impossibilidade do dizer.





A pequena história dos amantes sem destino
texto Carlos Pimenta
fotografia Margarida Dias


Um crime passional. Um homem que mata uma mulher. Um bar operário. Outro homem e outra mulher encontram nas palavras com que procuram compreender esse crime, a razão do seu regresso sistemático ao local onde tudo se passou. Estabelecem entre si uma rotina obsessiva na expectativa de um acontecimento que não surge e lhes permita preencher o silêncio que se insinua como desejo no aproximar dos corpos. O que se passará com aquele homem que o impede de dizer? Quem será aquela mulher que se esconde no excesso de palavras? Quem pode nomear o que entre eles se passa? Que futuro lhes é possível naqueles encontros em que o tempo fica à espera que um qualquer destino se revele? Talvez a sua história aconteça somente num ligeiro roçar da pele, nos olhares que trocam e lhes param o pensamento, num beijo que quase se deixa ver como prova da existência dos dois corpos.
No meio de tão pouca coisa há uma patroa que observa, um marido que não vemos, uma criança que aprende a tocar piano e um escândalo que se insinua.
O teatro de Duras vive no silêncio, no não dito. Não é um teatro de acção, de acontecimentos. É um teatro da espera. Tal como afirma o Vice-Cônsul de India Song “É preciso que qualquer coisa aconteça entre nós”.
Na banalidade das pequenas coisas da vida só nos seus extremos se revela o ser: no amor, ou no crime. A escrita de Duras vive na procura desta radicalidade e por ser tão verdadeira lhe chamamos cruel, é, como referiu Ernesto Sampaio, algo que nos “deixa no espírito um surdo rasto de fósforo a arder”.
Quando em 1996 dirigi Moderato Cantabile, procurámos reforçar no espectador a sua condição de voyeur. Entre ele e os actores a barreira invisível de uma montra de café acentuava a distância relativa a uma intimidade à qual não pertencia: o vidro permite ver mas não permite ouvir ou tocar. Lá dentro, os actores viviam as suas histórias. Do lado de fora, o público recebia-as na mediação que o som marcadamente cinematográfico impunha e que transportava o real para um imaginário que o cinema, exemplarmente, torna possível. O espaço onde se desenrolava Moderato Cantabile era claramente um dispositivo: um interface entre materialidade e imaginário que permitia, tal como no processo de descodificação do simbólico da escrita, reorganizar os seus elementos e entregá-los à subjectividade, que é o espaço próprio para o activar das ficções.
Tínhamos assim dois planos: um espaço físico que correspondia ao estabelecimento do lugar do espectador e do lugar do actor, e, um espaço imaginário que correspondia à intersecção dos dois lugares. E era neste espaço que tudo se passava. Equivalia, de certa forma, ao plano individual da leitura. Um narrador em off lembrava-nos, na sua ausência física, as palavras enquanto escrita. O teatro tem por função dar a ver. Em Moderato Cantabile procurámos, sobretudo, ocultar.
A obra de Duras é, também, toda ela, um trabalho de ocultação e de sofrimento, da impossibilidade do dizer: daí o rigor na construção das frases, na economia das palavras. É, uma escrita do interdito, da subversão, das trevas. O que essa escrita revela deve ser lido naquilo que não diz, no grande silêncio que se constitui ele próprio como acontecimento e nos contém no impulso imediato de o querer mostrar. Ao encenador compete organizar o espaço desse silêncio: o espaço da “insinuação do terrível no interior do banal”.
A versão cénica de Moderato Cantabile estreou em 7 de Julho de 1996, na Sala Estúdio do Teatro Nacional de D. Maria II. Em 1995, Marguerite Duras consentiu na realização do espectáculo. Foi a primeira vez que autorizou a adaptação teatral de uma obra sua sem que ela própria a tivesse efectuado. Esta situação, absolutamente excepcional, deveu-se à qualidade da tradução e versão cénica da autoria de Ernesto Sampaio e ao empenho posto por Eduardo Prado Coelho nas muitas conversas que manteve com a autora e com Yann Andrea. Aos dois intelectuais portugueses, entretanto desaparecidos, a minha homenagem.

Moderato Cantabile
Autor: Marguerite Duras; Tradução e versão cénica: Ernesto Sampaio;
Encenação: Carlos Pimenta; Cenário: Nuno Carinhas; Música original:
Rodrigo Leão; Figurinos: Marie Briet; Desenho de som: Paulo Abelho;
Desenho de Luz: Isabel Aboim; Apoio vocal: Luis Madureira; Com: Fernanda
Alves – A Patroa Mónica Calle – Anne Rogério Samora – Chauvin Diogo
Carvalho / Filipe Narciso – A Criança João Reis – Voz Off

Este texto foi publicado na OBSCENA #22.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Morreste-nos






Paulo Eduardo Carvalho era professor do Departamento de Estudos Anglo-Americanos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador no Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa.

O docente é autor de vários livros, entre os quais uma monografia sobre Ricardo Pais, "Ricardo Pais, Actos e Variedades", editada em 2006 pela Campo das Letras quando o encenador era também director do Teatro Nacional São João, e também “Identidades Reescritas – Figurações da Irlanda no Teatro Português” (Colecção Estudos de Literatura Comparada). Escreveu também "Identidades Reescritas – Figurações da Irlanda no Teatro Português" (Edições Afrontamento, 2009), livro que retoma sua a tese de doutoramento sobre a presença da dramaturgia irlandesa na dinâmica da criação teatral portuguesa dos últimos 50 anos.

Traduziu peças de Harold Pinter, Samuel Beckett, Brian Friel, Caryl Churchill, Tom Murphy, Marina Carr, entre outros. Hoje, os Artistas Unidos trazem a Lisboa (CCB) o díptico "Comemoração" e "A Nova Ordem Mundial", de Harold Pinter, cujos textos foram traduzidos por Paulo Eduardo Carvalho.

No campo académico, era membro integrado do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto e colaborador do Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa e do Centre for English Translation and Anglo-Portuguese Studies da Universidade do Porto.

Foi membro do Conselho Redactorial da revista Sinais de Cena, da direcção da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro e do Comité Executivo da sua congénere Internacional, tendo sido nos últimos anos o Director de Seminários daquele organismo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010


Público - ípsilon










À espera de Godot
07.04.2010 - Inês Nadais - Público Y


Três homens no lugar errado, à hora errada, e nenhum "big brother" a olhar por eles, na nova produção do Ensemble - Sociedade de Actores


Os guerreiros de Esparta penteavam os cabelos uns aos outros antes de irem para a guerra, e isso era a coragem: os homens mais valentes do mundo a comportarem-se como mulheres, e depois vitória. Edward, Adam e Michael não são guerreiros de Esparta, não são guerreiros ponto - são pessoas no lugar errado à hora errada, ou seja a caminho do mercado para comprar peras em Beirute, nos dias, às vezes meses e neste caso anos, da Crise dos Reféns -, mas também são os homens mais valentes do mundo, nas alturas em que não são os mais cobardes, em "Alguém Olhará por Mim", a peça do irlandês Frank McGuiness que o Ensemble - Sociedade de Actores estreou ontem numa pequena sala (íamos dizer cela) do Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto, com encenação de Carlos Pimenta.

Quando os encontramos estão no chão, confinados a um rectângulo de giz de dois metros por 1,20 onde cabem um colchão, uma manta cinzenta, uma garrafa de água e talvez uma Bíblia, ou então um Alcorão. É meio kit de sobrevivência: para sobreviver realmente ao cativeiro, Edward, Adam e Michael terão de inventar histórias, as suas próprias histórias (verdadeiras ou falsas, vale tudo quando é preciso vencer um tempo que ninguém pode saber quanto tempo tem: relatos de corridas de cavalos, chás com a rainha, noites de copos, cartas à família filmes do Sam Peckinpah em que o Gandhi morria logo na primeira cena, e filmes do Richard Attenborough em que o Gandhi nunca mais morre, todos esses amigos imaginários). "As ficções são uma forma de sobrevivência - enquanto houver homem", nota Carlos Pimenta. Ali há: um irlandês que fala de tudo, menos dos filhos ("Não os conheço muito bem: muito trabalho, muita diversão. Tal pai, tal filho, nesse capítulo: também não conheci o meu pai até ser demasiado tarde"), um americano (ou seja, "um bem precioso") a perder a cabeça, um inglês que depois de enterrar a mulher quis fazer como se nada tivesse acontecido, mas alguma coisa tinha acontecido. "Eles dizem muitas coisas, mas o que quisemos trabalhar aqui foi sobretudo o que eles não dizem. Qual é o segredo deles? Eles inventam coisas para não terem de dizer o que de facto vai dentro deles. Metem a cabeça fora dali, porque a última coisa de que devem falar, se querem continuar vivos, é da sua situação de reféns", explica o encenador.

E, no entanto, é apenas isso que eles são - moedas de troca da Jihad Islâmica, peões no grande tabuleiro de xadrez da geopolítica mundial. Era tentador ir por aí, mas Frank McGuinness não foi: "Beirute também é Belfast, cada um tem o seu Líbano", continua Carlos Pimenta. A "real politik" não estava na agenda do dramaturgo irlandês: o que estava na agenda dele era essa tragédia diária da sobrevivência individual num lugar hostil, longe de tudo, e sobretudo de quem podia querer saber. Coisa que não sabemos como é, mas imaginamos, isso de viver sem ninguém a olhar por nós, e mesmo assim esperar a salvação. É uma coisa que se constrói, aqui: a mão do vizinho do lado, à falta da mão de Deus (ou da mão do bom governo, ou mesmo de Godot, como noutra peça de outro irlandês, Samuel Beckett). Demora o seu tempo, como demorou o seu tempo a saga de Brian Keenan e John McCarthy, os reféns em que McGuinness se baseou, e que de facto alguém acabou por salvar: estas duas horas custam a passar. "Quisemos criar um tempo no espectáculo, e esse tempo sente-se de facto, como um peso", diz o encenador. A uns esse tempo mata, a outros fá-los muito mais fortes.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A opinião do blog Purple Heart Sessions

http://reflexoesaoluar.blogspot.com/


Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
Alguém Olhará por Mim

Ora aqui está a peça que ainda me tolda o pensamento e a causa pela qual nem tenho escrito aqui.



Sábado à noite, no Mosteiro de S. Bento da Vitória, mais propriamente no Claustro (lugar mágico e místico, esse!), vi uma das melhores peças da minha vida. Nessa semana uma professora nossa tinha dito que sabia que um espectáculo a tinha tocado quando não conseguia parar de pensar nele, e eu ainda não consegui esquecer este.
O texto de Frank McGuiness, tradução do fabuloso Paulo Eduardo de Carvalho e com encenação de Carlos Pimenta, mostra-nos três homens de nacionalidades diferentes presos em cativeiro por rebeldes. Um texto dos nossos dias, portanto. E que nos leva a indagar muito sobre a nossa vida, sobre o que faríamos se fossemos nós ali.
E é a loucura que se instala pelas palavras, e a tentativa de escapar através da imaginação para não deixar morrer o espírito. É a música perfeita. É o cenário perfeito.
É rectângulo de giz que nos corta os movimentos. É a nossa identidade posta em causa. A nossa sanidade. A nossa história.


É uma intimidade que se estabelece entre nós e os actores (um trabalho fantástico por parte dos três) e durante duas horas estamos com eles naquele cárcere. Com o coração apertado.


Ainda agora a peça me toca no âmago. E chorei como nunca quando cheguei a casa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010





O teatro é a experiência do público
– in extremis, in situ, in corpore –

A única vida da performance está no presente. A performance não pode ser guardada, gravada,
documentada ou participar na circulação de representações de representações. À medida que a performance procura entrar na economia da reprodutibilidade trai e diminui a expectativa da
sua própria ontologia. […] A performance implica o real através da presença de corpos vivos. Requer empenhamento. Mergulha na possibilidade e desaparece na memória devido à não existência de cópia. Oferece a possibilidade de reapreciar esse vazio.
Peggy Phelan – The Ontology of Performance.


Alguém Olhará por Mim fala‑nos de homens em situações‑limite. Nenhum de nós terá passado quatro anos em cativeiro. Por isso mesmo, movidos pela curiosidade, vimos a este lugar munidos de uma procuração que passamos aos actores na expectativa que nos transportem para um tempo e um lugar que desconhecemos. Sabemos, à partida, que o teatro habita o terreno das ficções e que este espaço que partilhamos nada mais é que um dispositivo que as torna possíveis.
Afinal, mesmo não se parecendo com umasala de teatro, tudo isto não passa de um
artifício. Estamos aqui, com outros que também vieram, e entregamo‑nos ao que os actores nos dizem. Aquilo que nos impõem pode incomodar‑nos. Mas não nos sentimos constrangidos na nossa liberdade. É só no seu exercício pleno que sentimos prazer. Conseguimos, apesar de tudo, estar sozinhos: os filósofos antigos ensinam‑nos que a felicidade completa é aquela que se cumpre no exercício solitário do pensamento. O teatro é uma arte da convenção e a sua percepção valida‑se no (re)conhecimento, por parte do público, dos códigos que a enformam. Mas será que pelo facto de sairmos da sala convencional estaremos a alterar a relação actor/espectador? Justificará isto o redimensionamento da posição daquele que observa edaquele que dá a ver? Pouco importando o lugar, aquilo que acontece no teatro é a “suspensão da vida”. Através desse exercício, o teatro permite dá‑la a ver num corte sincrónico em que aquele que age e aquele que observa coabitam um mesmo tempo e um mesmo espaço. Tornam‑se,assim, cúmplices numa relação que mais não é do que a do reconhecimento do corpo e do tempo do outro.
O teatro era (é!) o lugar onde as pessoas se encontravam para jogar e, tal como em qualquer jogo, obedece a um conjunto de regras que torna viável a assimilação de um determinado padrão. Mas é sobretudo no permanente jogo tensional com a sua estática aceitação que o teatro tem resistido à sua redução enquanto arte de outros tempos. Ele reflecte‑se – como possibilidade única de sobrevivência – nas mudanças experimentadas pelo Homem, consciente de que ao negá‑las morreria enquanto arte. O pior que o teatro pode fazer a si próprio é reclamar‑se de um tempo que já não é deste tempo.
Talvez o seu inesperado vigor advenha, precisamente, da sua condição de arte viva e efémera incapaz de se fixar na certeza de um tempo que ocorre, e o “indecifrável” discurso que produz não seja mais do que discurso em constante mutação – característica tão determinante da nossa contemporaneidade provisória. Daí lhe reconhecermos (e ainda bem) recorrentes sinais de crise. Como nos diz Agamben, “contemporâneo é aquele que fixa o olhar sobre o seu tempo para perceber não as luzes, mas a obscuridade”. •


Carlos Pimenta
27 de Março de 2010 (talvez por ser Dia Mundial do Teatro)