sábado, 28 de março de 2009

Dois Homens - Notícia Correio da Manhã

18 Março 2009 - 20h33
'Dois Homens’ no Teatro Municipal de Almada
Kafka inspira peça de Vieira Mendes
A obra de Franz Kafka serviu de inspiração ao dramaturgo José Maria Vieira Mendes (n. 1976) para escrever ‘Dois Homens’, monólogo que acaba de estrear na Sala Experimental do Teatro Municipal de Almada, interpretada por Ivo Alexandre e encenada por Carlos Pimenta, e ficará em cena até 5 de Abril.
Texto: Numa peça que evoca textos conhecidos do autor de Praga falecido precocemente (em 1924, com apenas 41 anos) – nomeadamente ‘O Artista da Fome’ – quem vai ao Teatro Municipal de Almada é confrontado com uma personagem, ‘K.’, atormentada entre dois sentimentos aterradores: a humilhação e a culpa. Humilhação porque desde a infância que o Mundo lhe parece um lugar ameaçador que o faz sentir-se pequeno e insignificante. Culpa porque, talvez mercê da educação judaico-cristã, quem pode fugir-lhe?
Carlos Pimenta diz que escolheu o texto por duas razões: porque segue atentamente a carreira do jovem Vieira Mendes; e porque Kafka lhe interessa sobremaneira. “Produziu uma obra muito crítica relativamente ao ambiente social e político do seu tempo”, explica. “As suas parábolas sobre a subordinação, a procura de um lugar de pertença, a incapacidade de agir sem culpa ou a autocensura, as hierarquias e os condicionamentos de ordem moral e social constituem, hoje, temas centrais para reflexão.”
Num dispositivo cénico inusitado – o público instala-se em volta de um estrado onde o actor constrói, aos olhos do espectador e ao longo de pouco mais de uma hora, uma espécie de abrigo de madeira – ouvimos ‘K.’ falar, interminavelmente, dos seus receios. Diz que alguém o prendeu. “Vieram dois homens.” Mas o público não vislumbra ninguém. A única coisa que vê é ‘K.’ a construir a sua própria prisão. Porque no final, ironia das ironias: é o medo de ‘K.’ que o torna prisioneiro.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Dois Homens







A Máquina, o gato e o rato


“Nós não temos qualquer noção de liberdade” diz o homem que pensamos chamar-se K. O desejo de o nomear - ainda que por uma inicial sem rosto e sem gente - revela o inconfessado propósito de o desterrar para as páginas de um livro conhecido ou para um palco de teatro. Evitaremos, assim, o confronto directo com a sua cruel proclamação. Condenados a obedecer, é na ficção que achamos algum conforto como se acolhidos por uma comunidade de refugiados em território emprestado. Schiller - que não conheceu o homem a quem poderemos chamar K. - dizia que as leis do teatro começam onde acabam as leis da sociedade. O homem – e também aquele a quem queremos chamar K. - carrega consigo a culpa e a punição que já são constitutivas da sua consciência abstracta. Vivemos – tal como K. - num imenso panóptico que nos mantém na incerteza sobre a presença concreta do vigilante e nos induz a comportarmo-nos como se permanentemente vigiados. A nossa sociedade disciplinar mantém-nos numa espécie de “sistema jurídico unipessoal” no qual sentença e pena decorrem sem intermediação e em que o juiz é simultaneamente o condenado. Notável rentabilização de meios e recursos só possível graças à invenção do pecado original!
Enquanto ser social, o homem vive no paradoxo de um desejo de liberdade e da sua contingência. E é, seguramente, este paradoxo que leva K. a afirmar “ (…) eu sempre respeitei, nunca duvidem da culpa, jamais duvidem da culpa e das ordens e das sentenças e das cores e por aí fora, sim senhor. Porque eu sempre respeitei, eu respeito as ordens (muito bem, muito bem). Nós jamais podemos duvidar da culpa, jamais, porque a nossa culpa, a nossa culpa vem dos outros”. Mas… isso que nos interessa? Quanto a K., já resolvemos encerrá-lo numa ficção. O seu confronto consigo mesmo é, para nós, uma representação. A sua qualidade enquanto personagem coloca-o fora do mundo real que habitamos e no qual as regras do bom senso garantem a homeostasia do sistema e a sua sobrevivência. Contudo, não podemos deixar de nos perguntar se não estará K. ainda demasiado próximo de nós? Não será essa quase ausência de nome que lhe dá uma universalidade que nos permite reconhecê-lo fora da tranquilidade das páginas impressas de onde emerge para, numa presença insidiosa e obsessiva, nos lembrar que fomos nós que o criámos e encerrámos na ficção? Afinal, quem é K.? Talvez um homem no seu labirinto, um funcionário que “ se faz centro de diversas narrativas, quase todas elas incompletas”. Incompletu: não acabado, imperfeito, truncado. O homem a quem chamamos K. é um homem (dois homens?) prisioneiro da sua própria narrativa. Mas… e não é possível libertá-lo?

“Só tens que mudar de direcção”, diz o gato.
“Honrai os vossos superiores”, diz a Máquina.
O mundo, disse o rato, o mundo vai encolhendo com os dias, disse o rato.

Têm razão, o gato e o rato!



Carlos Pimenta, Fevereiro de 2009

Dois Homens - Estreia a 14 de Março no Teatro Municipal de Almada





Dois Homens



Direcção: Carlos Pimenta

Espaço cénico: João Ribeiro

Música original: Dead Combo http://www.deadcombo.net/


Com: Ivo Alexandre


Produção: Companhia de Teatro de Almada http://www.ctalmada.pt/

domingo, 23 de novembro de 2008

Notícia - Lecool



Teatro A Senhora de Sade
Diz-se que por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Ora, grande ou não, por trás do Marquês de Sade, como não poderia deixar de ser, está também uma mulher:
A Senhora de Sade. Aqui é ela a protagonista e o próprio do Marquês nem chega a pisar as tábuas. (Dêem-lhe descanso, pois é sempre ele o do papel principal.) Desta vez o poderio é totalmente feminino e não há nenhum homem no elenco. E a Senhora de Sade, não é apenas uma. São seis! A esposa amorável, a sogra perturbada pelos excessos do genro, a irmã que se torna amante do culpado perseguído, uma criada discreta, uma piedosa amiga da família e uma Sade fêmea, adepta do Marquês. Umas descrevem-no como vicioso, outras como imaculado. E aí surge um conflito entre imoralidade e castidade. Sempre polémico e apaixonante, o Sr. Marquês! /Sónia Castro